Mostra Internacional de Cinema de São Paulo completa 50 anos em 2026

Festival que revelou Quentin Tarantino ainda desconhecido em 1992 já exibiu mais de 11 mil filmes e chega à edição comemorativa com 380 produções de 93 países

Mostra Internacional de Cinema de São Paulo completa 50 anos em 2026

A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo completa 50 anos em 2026. Ao longo de sua história, o festival já exibiu 11.692 filmes de 8.474 cineastas, com produções de diversos países, consolidando-se como uma das principais portas de entrada do cinema mundial no Brasil.

O encontro com um Quentin Tarantino ainda desconhecido

Em 1992, o jornalista Ubiratan Brasil, o Bira, assistiu no Masp a uma sessão de "Cães de Aluguel" (Reservoir Dogs). Havia apenas cerca de 16 espectadores na sala, em um sábado ao meio-dia. O diretor do filme estava presente: Quentin Tarantino, então praticamente desconhecido do público.

Tarantino agradeceu à plateia por ter escolhido assistir ao filme mesmo com o dia ensolarado e, após a sessão, conversou com os espectadores presentes. Para Bira, o episódio representa uma das características centrais da Mostra: apresentar artistas desconhecidos que posteriormente se tornariam grandes nomes do cinema mundial.

Uma janela para o cinema internacional

Segundo Bira, a Mostra foi fundamental para ampliar o acesso dos paulistas ao cinema internacional fora do circuito comercial. Antes do festival, os cinemas da cidade exibiam principalmente grandes produções norte-americanas, deixando pouco espaço para outras cinematografias.

A Mostra permitiu ao público conhecer produções de países como China, Coreia, Cuba e Índia, entre diversos outros. Nos primeiros anos, a experiência era ainda mais desafiadora, já que muitos filmes chegavam ao Brasil com legendas em outros idiomas, exigindo esforço extra dos espectadores.

A origem do festival em 1977

A primeira edição da Mostra aconteceu em outubro de 1977, organizada pelo crítico Leon Cakoff, então responsável pelo departamento de cinema do Masp. A iniciativa fazia parte das comemorações dos 30 anos do museu.

Apesar da divulgação limitada na época, a primeira edição atraiu mais de 15 mil espectadores ao longo de 11 dias, com a exibição de 23 filmes de 17 países. Um dos destaques daquela edição foi "Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia", de Hector Babenco.

A Mostra como janela durante a ditadura militar

A aposentada Vanda Sanae Hamanaka Serizawa, frequentadora do festival desde a primeira edição, destaca a importância da Mostra durante a ditadura militar. Segundo ela, o evento funcionava como uma janela para um mundo que não era facilmente acessível, em um período marcado pela censura no país.

Leon Cakoff teria conseguido contornar as limitações da época e ampliar gradualmente o alcance do festival. Nos primeiros anos, as sessões eram inclusive gratuitas para o público.

Um espaço de formação para cinéfilos e profissionais

Ao longo de décadas, a Mostra também ajudou a formar diretores, críticos e outros profissionais do cinema brasileiro. O contato com filmes fora do circuito comercial proporcionava acesso a diferentes linguagens cinematográficas, culturas, comportamentos e novas perspectivas críticas.

Os frequentadores mais assíduos do festival são conhecidos como "mostreiros", e o evento também se tornou, ao longo dos anos, espaço de convivência e encontro entre cinéfilos de diferentes gerações.

Resistência e capacidade de adaptação ao longo de 50 anos

A Mostra nunca deixou de acontecer desde sua criação. Mesmo durante a pandemia e o fechamento das salas de cinema, o festival se adaptou para formatos online e drive-in, garantindo a continuidade da programação.

Ao longo da história, houve edições com mais de 460 filmes e outras menores, afetadas por dificuldades de patrocínio. Para a diretora Renata de Almeida, essa capacidade de adaptação é um dos segredos da longevidade do evento.

A edição de 50 anos traz 380 filmes de 93 países

Em 2026, a Mostra apresenta 380 filmes de 93 países, além de exposições, shows, debates e lançamentos de livros, incluindo uma plataforma digital de acervo. Entre os livros lançados está "Antes Que Eu Me Esqueça: Um Ensaio de Lembranças para os 50 Anos da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo", de autoria de Renata de Almeida.

Renata acompanha a organização do evento desde 1989, quando participou da 13ª edição, e afirma estar ligada à Mostra há 37 anos, acompanhando de perto boa parte da trajetória do festival.

Noticias(d)

6 Octubre 2026